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A gastronomia progride?

13.01.2015 Ellen Gallego

 

É uma questão que escuto ser discutida com frequência em rodas variadas, e com a qual, inicio a minha participação no site.

Nunca se falou tanto sobre comida, quanto nas duas últimas décadas. Vemos o assunto em tantos livros, sites, programas de tevê e outras mídias, que ele se torna até cansativo.

Somos levados de um lado para o outro por todo vento de doutrina, ora preocupados com uma alimentação saudável, ora apenas interessados no prazer de uma refeição rápida.

Quando nossos olhos pedem mais, ansiosos por novidades, acabam empanturrados de velharias “gourmets”, na maioria das vezes, apresentados dessa forma como “uma desculpa” para se cobrar mais caro. Qualquer semelhança com a piada do “raio gourmetizador”, que anda circulando pela internet, não é mera coincidência.

As aparências “chiques” das receitas dissimulam a ignorância de muitos sobre as técnicas utilizadas para executá-las. Algumas receitas alcançam um grau de confusão tão grande, que ficou quase impossível reproduzi-las com o mesmo sucesso de um restaurante.

O preço da refeição aumenta justificado pelo crescimento dos custos de produção dos alimentos.

A tecnologia utilizada na industrialização aumentou a vulnerabilidade dos ecossistemas e levou ao declínio tradições e relações de convívios entre pequenos produtores e consumidores.

A profissão que era considerada subemprego e até marginalizada no Brasil, atualmente é sinônimo de status, na qual observamos alguns profissionais mais preocupados com a própria imagem do que trabalhar em algo que se viu engajado.

 

Ainda assim, temos motivos para sermos otimistas.

 

Todo esse movimento em torno da comida é uma oportunidade única e maravilhosa, porque nos dá a chance de recolocar o alimento como um elemento central de nossas vidas, refletindo, dialogando, aprendendo e trocando práticas com mais transparência.

Essa nova consciência exige um grande esforço cognitivo, diante desse fluxo intenso de informações, faz com que cada um de nós mude sua abordagem em relação ao alimento, equipando-se com todos os instrumentos necessários ao prazer de comer.

Instrumentos como  o nosso autoconhecimento que nos permite identificar os gostos, ou nossos sentidos que devem estar conscientes aos estímulos externos, além da inventividade, sensibilidade e curiosidade permanente dos assuntos que nos unem a terra e ao alimento.

Ou seja, não se trata apenas de conhecer mais recursos, mas sim de descobrir como usá-los, pois um prazer consciente não se limita a “matar a fome”, literal ou de saber.

Uma nova relação cresce e pode ser compartilhada por todo o mundo, como se houvesse um gastrônomo dentro de cada um de nós. Deixamos de ser apenas consumidores, para nos tornar pessoas que participam ativamente dessa nova gastronomia, buscando mais qualidade, revendo nossos comportamentos e objetivos, dando um novo sentido a forma como nos alimentamos.

Faço um convite.

Criar um novo relacionamento com a sua mente, com o corpo e o alimento.

Fugir à tentação de apenas reproduzir uma receita, postar fotos nas redes sociais ou visitar um restaurante estimulados pelo modismo.

Permitir-se mais. Dizer não a mil coisas. Criar experiências incríveis. Aventurar-se de corpo e alma a esse prazer quase espiritual.

Vamos nos reunir em várias conversas, trazendo assuntos simples  e significativos para o seu dia-a-dia sempre nos dando o direito de “pensar diferente” e criar a nossa própria ideia sobre a gastronomia.

Aos poucos, descobriremos novos modos de liberar nosso potencial, permitindo que o conhecimento que acumulamos floresça em todos os níveis.

E com isso, mudo a questão: estamos progredindo?

 

Sou uma estudiosa da alquimia da Nova Gastronomia e também uma empreendedora, com uma loja de comida criativa para os novos tempos . Venho estudando os rudimentos da culinária e da fisiologia do gosto, através de livros, mentores e cursos, concluindo o aprendizado em Firenze – Itália, Hoje, sigo o conceito da Ecogastronomia, como associada e ativista no movimento Slow Food, acreditando que o alimento deve ser bom, limpo e justo.