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A vida além dos rótulos

08.01.2015 Samia Assaf

 

Todo mundo quer saber o que você é. O que você é?

As pessoas parecem precisar colocar algumas etiquetas em você, pra poder catalogá-lo  e colocá-lo na prateleira certa dentro da biblioteca de (pré) conceitos que elas têm na cabeça.

Como se saber quem somos fosse um trabalho fácil. Nós nos descobrimos a vida inteira. Mudamos de opiniões, de planos, de parceiros, ao longo da vida. De tudo, enfim. Decidimos tirar tempos pra pensar, pra viajar, pra nos descobrir melhor. Nos investigamos, quando estamos infelizes, ou quando tudo dá errado, pra tentar descobrir se estamos sendo sinceros conosco mesmo. Tentamos descobrir se estamos fazendo escolhas por nós mesmos ou pelos outros, se sabemos de verdade o que queremos.

Mas todo mundo, mesmo sabendo de tudo isso, parece achar que é simples. Basta responder algumas perguntas “básicas” que você vai parar na prateleira “terrorista”, “cafona”, “pobre”, “alienado”, “ladrão”, “comunista”, “eco-chato”, “patricinha”, ou o que for. E a partir daí, tudo o que você pensar ou fazer, você pensa ou faz porque é alguma dessas coisas. Acabou-se a complexidade do ser humano. Poderíamos ser descritos em meia-duzia de hashtags.

Ninguém conhece a verdade. Ninguém sabe nada de ninguém. Em tempos de crimes cometidos em nome da fé (coisa tão contraditória, por si só) é impressionante observar como ela parece ter perdido o lugar  e o significado que deveria ocupar no entendimento das pessoas. A fé, em alguns casos, não é vista mais como um caminho de busca e orientação espiritual / moral. Ela também virou rótulo. E pior, um rótulo político. Mas religião não é política. E nem resposta de senso de IBGE. Pois não é simples, nem fácil definir para os outros qual é a sua orientação espiritual de verdade. Isso não é algo que você automaticamente assimila só porque teve uma educação religiosa. Existe uma diferença abismal entre ter o conhecimento e ter fé. Você pode decorar de trás pra frente qualquer livro religioso, ou todos, e não conseguir acreditar, compreender ou sequer ver sentido em nada do que leu. Esse sentido, se tiver que vir, vem a seu tempo. Compreender certas lições espirituais é trabalho de uma vida. Mas explicar isso para os outros dá muito trabalho e o mundo quer uma resposta rápida, pra poder chamar você de alguma coisa e colocar você em alguma turma.

Pois religião, origem, raça, opção sexual e o que quer que seja, virou uma maneira das pessoas se agruparem. E o mundo se divide em turminhas. A partir daí o que é bom e o que é ruim vai depender do ponto de vista da turma que você pertencer. O certo e o errado ganharam uma relatividade injusta. Esquecemos de enxergar nossos próprios erros e daqueles que consideramos nossos “semelhantes”, condenamos o  outro só por ele ser “diferente” de nós, ou daquilo que a gente julga aceitável. Alimentamos a intolerância constantemente.

Dizem que a justiça é cega. Nós deveríamos tentar imitá-la quando nos propomos a julgar alguém. Procurar lembrar que o que importa é a índole das pessoas e não aquilo que elas culturalmente representam. Deixar os rótulos de lado e tentar compreender quais são as crenças que as movem, independentemente de religiões. Pode ser que alguém totalmente diferente de você tenha sonhos muito parecidos com os seus e queira viver em um mundo muito parecido com aquele que você quer ajudar a construir. No final das contas, o que nos separa não são nossas diferenças, apenas a nossa capacidade de fazer bem ou mal. Se nos esforçássemos para identificar isso nos outros, ao invés de impressões rasas,  a vida seria bem melhor e mais justa para todos.

 

Sou publicitária formada pela ESPM e jornalista formada pela Católica UniSantos, com experiência profissional em planejamento de comunicação e cursos de especialização em marketing digital, também realizados na ESPM. Amo tudo o que é criativo, não sobrevivo sem música, sou apaixonada por viagens, adoro aprender coisas novas, adoro gente simples e espontânea, minha maior paixão é escrever!