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Começar de novo

01.04.2015 Samia Assaf

 

Um dia você descobre que não está feliz. E daí, todo dia, a cama te puxa de volta quando você quer acordar. Os dias parecem iguais. Igualmente insatisfatórios. Você não vê sentido nas coisas que faz, mas tudo funciona. Contas são pagas, afinal. Você está fisicamente saudável. Tem quem te ame. É mais sorte do que muita gente tem na vida.

Mas alguma coisa ainda não está certa, o que será? Por que você não consegue simplesmente ficar bem? Aí, uma culpa começa a pesar. Aquela impressão de que é você quem complica tudo. Porque se tudo está funcionando, não caberia a você apenas ser feliz? Você começa a acreditar – de verdade – que é alguém pobre de espírito, ou mal agradecida.

Até um dia em que você começa a parar de procurar respostas pra sua infelicidade analisando tudo o que está ao seu redor e passa a olhar pra si mesma. Não procurando uma culpada, apenas procurando se entender. Afinal, nem sempre a culpa da nossa infelicidade vem daquilo que a gente chama de modo de vida vigente – muito embora esse modo de vida precise mesmo ser questionado e melhorado constantemente. É que as vezes, as coisas simplesmente não fluem como deveriam fluir, porque você nunca lembrou de se perguntar de verdade quem você realmente é. Ou o que é capaz de fazer melhor (por algumas habilidades, ou afinidades naturais) – e incapaz também (por limitações tão naturais quanto as suas habilidades).

Você começa a relembrar todas as suas escolhas e todas as razões que as motivaram, para tentar entender como foi que você foi parar onde está hoje. Descobre que um dia se colocou fora da equação das decisões. Escolheu um caminho sem saber se tinha o que era necessário para percorrê-lo com satisfação e competência. Ignorou outros aos quais poderia ter se dedicado e devotado mais, por mais incertos que parecessem. Esqueceu que, na verdade, não existe trajetória fácil na vida, qualquer que seja. Que qualquer coisa, para dar certo, vai exigir uma grande dose de esforço. Mesmo aquele caminho que é nosso eleito e favorito e que parece tão certo pra gente. Mas se o segredo do sucesso (e defina sucesso como quiser) é mesmo o esforço, então escolher aquilo pelo que você naturalmente estaria mais inclinado a se devotar – e até se sacrificar, se preciso fosse – faria sentido, não faria?

Você descobre que fez escolhas “erradas” porque, por algum motivo, esse caminho parecia mais seguro. Ou porque, em algum momento, você se espelhou em alguém (algum exemplo de sucesso) que tinha um perfil totalmente diferente do seu, apesar de toda a sua admiração por essa pessoa. Ou ainda, por querer satisfazer expectativas daqueles que te amam, para ter algo de bonito para mostrar à “sociedade”, ou pior, para impressionar aqueles que nunca te deram muito crédito.

E então uns 10, 20 anos precisaram passar pra você se dar conta do engano.

Uma constatação que ao invés de te aliviar, parece que te deixa mais aflito – afinal, de que adianta descobrir tudo isso quando já é “tarde demais”? E entenda “tarde demais” como fazer tudo o que deseja, num tempo (ou uma etapa da vida) diferente da que “os outros” fazem as mesmas coisas.

Mas então, se o início de todo o problema foi fazer tudo igual a alguém que não é você, não seria a hora de começar a dar uma chance a si mesmo? E se você não for mesmo igual a maioria? E se você é aquela pessoa que decide se casar, pela primeira vez, aos 50 anos? Ou entrar pra universidade aos 40?  E se aos 60 você ainda nutre o sonho de, enfim, tirar um projeto do papel (qualquer que seja)?  É loucura demais?

Começar de novo, ou fazer mudanças na vida, não é fácil. Não porque não sejamos capazes desse feito. Mas porque precisamos ACREDITAR que somos e que merecemos essa chance. E é aí que tudo complica. Estamos tão acostumados a nos explicar e tentar ter atitudes que pareçam coerentes e sensatas para os outros, que muitas vezes desvalorizamos esses novos planos e os tratamos como coisas que não deveriam ser levadas à serio. Sentimos vergonha de nós mesmos por escolher um caminho diferente, como se isso fosse um atentado contra o bom senso – e, em alguns casos, contra aqueles que nunca tiveram essa mesma coragem.

Acontece que nossa busca tem que ser importante pra gente e não para os outros. Então, talvez o primeiro passo para começar a trilhar qualquer novo caminho seja parar de se comparar com todo mundo. Se você está buscando algo que faz mesmo sentido pra você: não se distraia, não se distraia, não se distraia. Ao invés disso, melhor manter o foco e gastar sua energia e esforço tentando colocar seus próprios planos em prática. Enquanto estiver lutando por eles, esqueça o cara que tem uma rotina diferente da sua, que conquistou isso ou aquilo, ou casou com alguém sensacional. Isso é bom pra ele. Mas ele não é você. Então, que importa? Apaixone-se e entregue-se à sua busca ao ponto de devoção, para que você mesmo não desista dela, nem durante os desafios que vão surgir. Para que você se torne você mesmo. Para que a sua felicidade possa ser verdadeira.

Que a sua felicidade seja verdadeira!

Sou publicitária formada pela ESPM e jornalista formada pela Católica UniSantos, com experiência profissional em planejamento de comunicação e cursos de especialização em marketing digital, também realizados na ESPM. Amo tudo o que é criativo, não sobrevivo sem música, sou apaixonada por viagens, adoro aprender coisas novas, adoro gente simples e espontânea, minha maior paixão é escrever!