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Detalhes tão pequenos

27.11.2014 Tatiana Porto

 

Desde que fiquei sabendo do caso da menina Valentina – que morreu no último dia 10, em decorrência de uma infecção hospitalar adquirida após internação e cirurgia para retirar uma presilha de cabelo presa no esôfago – vivo sem sossego.

É possível controlar todas as variáveis para que possamos evitar um acidente com nossos filhos? Óbvio que não. Infelizmente, não somos onipotentes, nem onipresentes e muito menos podemos evitar algo que, seja qual for a explicação, precisa acontecer. O que nos resta é tentar prestar atenção para minimizar as armadilhas do dia a dia.

Quando o primeiro filho começa a se locomover e a explorar a casa, fazemos várias adaptações, a fim de tornar o ambiente um pouco mais seguro: prendemos gavetas, protegemos os cantos dos móveis e, principalmente, tiramos do alcance dele tudo o que puder passar dentro do buraco de um rolo de papel higiênico, para que ele não sinta a tentação de levar o objeto à boca. Afinal, sabemos que nessa fase, esse é o esporte preferido. Sim, buraco do rolo do papel higiênico: foi isso que aprendi (não me lembro muito bem onde), mas era um médico que dizia que o que passasse dentro desse buraco, poderia passar pela garganta de uma criança. E sim, fiz o teste muitas vezes. Sem falar nos brinquedos… Eu olhava pra ver se tinha o selo do Inmetro, quando não tentava, eu mesma, realizar um teste de qualidade puxando repetidas vezes qualquer peça que pudesse oferecer risco.

Aí vem o segundo filho. Nisso, sua casa já está tomada de brinquedos dos mais diversos tipos, tamanhos e procedências, por todos os cômodos. Seu filho mais velho resolve gostar de brinquedos “super práticos” (embora lúdicos), como Lego, com partes tão pequenas que você não consegue sequer segurar com seus dedos. E em meio aos afazeres da casa e cuidados com as crianças, você está ali tentando prestar a tal da atenção… Guarda um brinquedo que estava no chão da sala e, quando pisca, já tem outro no lugar… Guarda de novo e, quando vê, tem canetinhas com pequenas tampas coloridas chamando a atenção da sua caçula… “Essa é minha vida, esse é meu clube” – já dizia a propaganda. Sou uma caçadora de perigos em potencial, com a diferença que agora não dá tempo de pegar o rolo pra fazer o teste, vai na expertise mesmo, nada como a prática adquirida ao longo do tempo e duas crianças.

E foi em meio à essa minha crise de exterminadora de peças pequenas, que passei um susto outro dia. Tenho um aparador na sala, com 4 puxadores quadradinhos e bem pesados, mas que passam dentro do rolo. Ou seja: perigo! Bom, na verdade, tinha. Depois que o mais velho inventou o esporte de rodá-los até caírem no chão, 3 deles foram retirados, ficando só 1 para que fosse viável abrir as portas e gavetas. Pois outro dia, em que minha “atenção” não estava das melhores, esse único puxador sumiu. Foi o suficiente para me fazer entrar em pânico, já que tinha visto minha filha menor em volta do móvel, um tempo antes. Revirei a casa toda, arrastei sofá, tirei tapete, perguntei repetidamente a ela (que não fala) onde tinha colocado aquela peça, enquanto ela me olhava com cara de interrogação, claro. A essa altura, já tinha certeza que ela a havia engolido, embora agisse normalmente. Finalmente, consegui falar com meu marido – que estava viajando e tinha aberto a gaveta pra pegar documentos, antes de ir – e pude perguntar se o puxador estava ali mesmo. Ele me respondeu que quando foi abrir o móvel, o puxador saiu em sua mão e que, por isso, ele o havia guardado. E que não, nossa filha não tinha comido a peça. Nessa hora é engraçado, porque sentimos o alivio de fato percorrer nosso corpo, como se fosse um líquido.

Nem preciso terminar dizendo que junto com o alívio veio a velha e companheira culpa, né? Culpa por ter me distraído, culpa por não ter visto que o puxador não estava ali, culpa por exagerar (mas sou uma pessoa desesperada por natureza, é de se esperar que a maternidade me deixasse um pouco pior).

Mas eu sigo aqui, tentando pelo menos controlar  meu mundo particular, já que sei que o de lá de fora é impossível. E tentando melhorar um pouquinho a cada dia, pra entender que as palavras “escolha”, “destino”, “livre arbítrio”, “acaso” existem e que nem sempre vou estar por perto para proteger meus filhos e, mesmo quando estiver, nem tudo o que pode acontecer vai ser culpa minha e nem tudo vou poder consertar. É aprender ou estar sujeita a ter um “troço” no coração diante das surpresas e preocupações que os filhos nos trazem a cada dia. E não posso ter um “troço” justo no coração, já que tem pessoinhas muito especiais morando nele.

Formada em Administração com ênfase em Marketing pela ESPM, hoje exerço uma profissão que sempre esteve dentro do meu coração: sou mãe em tempo integral de dois lindos pequeninos: João e Luiza. Com isso, também sou dona de casa, recreadora, professora, enfermeira, cozinheira, motorista, palhaça particular e administradora de um e-commerce de roupas e acessórios para bebês e crianças.