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Foi bom enquanto durou

25.06.2014 Samia Assaf

 

 

A felicidade passageira também é felicidade. Afinal, nem as pessoas que conquistaram uma vida feliz, são felizes o tempo inteiro. A felicidade é um momento. Um momento pra ser saboreado, enquanto dura. Pra ser valorizado, bem recebido. Melhor vivê-los, do que não viver nada. Melhor pegar um trem e descer 2 estações depois, do que ficar parada eternamente na estação, apenas vendo os vagões passarem, imaginando a que lugares eles poderiam nos levar.
A felicidade adora gente disponível, que resolve sair por aí, sem nada esperar. Ela fica a espreita, aguardando alguém dar sopa. Se esconde num olhar, num sorriso, numa música. Ela até resolve te seguir, de vez em quando. Pois é, as vezes a felicidade chega a se impor, quando a gente está distraída demais para notá-la. Tudo o que a gente precisa fazer é andar. A única coisa que precisa existir é um caminho.
Porque ela fica lá no meio da maioria deles, como um pacotinho de alegrias esperando alguém ter a curiosidade de o abrir. Guardando dentro de si, palavras, risadas, abraços e beijos, que podem vir a durar pra sempre, ou pela eternidade de um momento.  Pois a alegria faz o tempo parecer mesmo muito relativo. Afinal, uma hora feliz vale por quantas horas vazias?
Costumamos acreditar que só seremos realmente felizes quando alcançarmos tudo aquilo que é mais importante e sagrado para nós. Nossos amores verdadeiros, os filhos que pretendermos ter, o sucesso profissional e material. Queremos o arrebatamento, a emoção forte, as coisas significativas, as grandes vitórias. Tudo aquilo que esperamos durar pra sempre, que estamos dispostos a lutar para preservar. Aprendemos a dizer não ao que consideramos menos nobre do que nossos sonhos mais especiais. Repetimos o mantra “não é isso que estou procurando”.
Também sou perseverante. Também espero por esse algo nobre. Até hoje não desisti dos sonhos que me lançaram a caminhada. Mas a vida não é só feita de destinos, a vida é feita de caminhos. É lá que a gente gasta a maior parte dela. E quantos passos temos que dar até alcançar esses pontos de chegada, até conquistar cada uma dessas realizações? Como a gente percorre essa estrada, lida com seus buracos, desvios, bifurcações, altos e baixos? Passa por tudo lamentando suas imperfeições, seus contra-tempos, esperando aquele belo dia, ou aquele belo lugar, onde poderemos ser felizes “de verdade”?
É preciso ter olhos para ver que o caminho também guarda suas belezas, seus ensinamentos, suas boas surpresas. Buscar um objetivo com essa fé toda, não deveria nos cegar tanto, nos impedir de enxergar a graça das pequenas alegrias singelas, que povoam nossos dias. Qualquer felicidade é uma felicidade digna de ser vivida. Melhor ela dentro do coração, do que emoção nenhuma. Melhor um coração ocupado em sentir. Esse é o propósito dele. Sem isso, é só um músculo batendo, involuntariamente. E o coração, sentenciado a sem-gracisse, fica doente.
Resolvi começar a presenteá-lo, então. A agradá-lo mais. A deixá-lo batucar outros ritmos, diferentes do compasso repetitivo e monótono de sempre. Passei a colher dos meus dias qualquer emoção boa que a vida tenha tido a generosidade de me oferecer. Eu e a felicidade, agora, nos encontramos com mais freqüência. Eu a enxergo me dando oi, num convite que pensei em recusar. Eu sinto ela aquecer a minha pele quando ando de bicicleta, eu a bebo no café fresquinho. Eu presto atenção nela, não a deixo mais falando sozinha. Eu não a discrimino, não julgo sua intensidade, não a meço na régua da perfeição.
A imperfeição da vida já não me incomoda mais, ela me liberta. Abre a minha cabeça para um mundo alternativo onde as alegrias não precisam se encaixar em nenhuma expectativa. Assim, começo a dar boas vindas ao improvável, já que ele passou a me intrigar muito. Coloquei o sim de volta na minha vida, para descobrir o que ele esconde. Abri bem meus olhos para apreciar o que ele me mostra. Coloquei passos nos meus pés para descobrir onde ele me leva. Coloquei passos nos meus pés, para que os caminhos sempre continuem a existir. 

Sou publicitária formada pela ESPM e jornalista formada pela Católica UniSantos, com experiência profissional em planejamento de comunicação e cursos de especialização em marketing digital, também realizados na ESPM. Amo tudo o que é criativo, não sobrevivo sem música, sou apaixonada por viagens, adoro aprender coisas novas, adoro gente simples e espontânea, minha maior paixão é escrever!