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Homem Irracional

02.09.2015 Samia Assaf

 

Não vim aqui exatamente fazer uma crítica cinematográfica de Homem Irracional, de Woody Allen.

Meu propósito não é discutir o quanto ele pode ter se repetido nesse filme, comparando-o com outros de sua carreira, ou em que pontos o roteiro pode ter deixado a desejar. Senti vontade de falar de Homem Irracional por outro motivo. Apenas porque fiquei remoendo as ideias do personagem Abe Lucas e sua missão perturbadora. Vou explicar.

No filme, Abe Lucas (personagem interpretado por Joaquin Phoenix) é um professor de filosofia, desiludido com a vida e caminhando para a autodestruição, quando descobre um novo propósito que lhe devolve a vontade de viver: assassinar um juiz desonesto. Essa ideia brota em sua cabeça em um café, enquanto ouve a conversa da mesa de trás. Nela, uma mulher conta aos amigos sobre a forma parcial como o tal juiz lida com seu caso, favorecendo seu ex-marido, um péssimo pai, e tirando dela a guarda de seus filhos.

Nesse início, então, Lucas enxerga sua louca missão como algo praticamente heroico. Afinal, ele ajudaria o mundo a se livrar de alguém ruim.  Ao perceber na sua empreitada o potencial de um crime perfeito – afinal, ele não tinha qualquer ligação com a vítima – fica animado e decide colocar seu plano em prática.

Lucas embarca nessa ideia com facilidade porque já não acredita que teorias filosóficas, ou valores morais funcionem sempre na vida real e prática. Um exemplo é dado no próprio filme. Em uma de suas aulas, ele lembra que, moralmente, mentir é tido como algo errado e nocivo. Mas pergunta a seus alunos o que fariam se fossem as pessoas que estivessem escondendo a família de Annie Frank e os nazistas batessem em suas portas. Contariam a verdade e deixariam que eles os levassem?

Enquanto eu assistia a tudo isso, pensava em quantas vezes espumei de raiva lendo notícias. Tentando digerir aquelas coisas revoltantes que, infelizmente, os jornais nos apresentam todos os dias. Tentando compreender pessoas. Pessoas que entram para um grupo como o ISIS, pessoas que matam os outros em algo apelidado de “microondas”, pessoas que estupram crianças, ou mulheres, coletivamente, pessoas que todos os dias fazem coisas que são impossíveis de compreender. Pensei em mim tentando me convencer, sem ter certeza, que todo mundo – todo mundo mesmo – pode se redimir, melhorar, evoluir.

Quantas vezes não perdi essa batalha e me encontrei fantasiando o que eu faria com essa gente péssima, se eu tivesse superpoderes para destruí-los (porque na minha fantasia eu sempre sou poderosa e indestrutível). Cheguei a imaginar coisas bem piores do que as que esses criminosos fazem com suas vítimas. Acredite, bem piores, chegando a ficar realmente espantada com a minha criatividade pra ser cruel.

Existe um monstro dentro de nós. Um bicho bravo e irracional que a nossa consciência sempre tenta acalmar. Um bicho que começa a rosnar sempre que, de alguma forma, se sente ferido, ou prejudicado. Que luta pra assumir o controle, pra dar as cartas, pra mostrar como é que se faz.

Esse bicho só consegue se libertar quando descobrimos alguma forma de poder ou vantagem sobre o outro e nos seduzimos com isso. Alguns criminosos usam armas, outros se aliam a poderosos, Abe Lucas tirou vantagem em ser um desconhecido da vítima, alguém de quem ninguém poderia suspeitar.

Tudo o que, na verdade, Abe Lucas queria conseguir era algum poder em relação à vida. Queria deixar de se sentir como mais uma figura impotente e irrelevante diante de um mundo cheio de decepções. Planejando seu crime se sentia vivo, pois podia saborear seu domínio da situação. Uma sensação tão empolgante, tão intoxicante, que facilmente se sobrepôs ao caráter justiceiro que queria dar a sua missão. O que importava é que agora voltava a se sentir capaz de assumir as rédeas da própria vida. Já não se comportava como uma vítima de tudo o que há de errado no mundo, mas fazia as suas próprias jogadas.

Bem, os resultados disso você pode conferir no cinema. Mas acho que o tema é uma boa reflexão. Principalmente numa época com tantos “justiceiros” de plantão nas mídias sociais. Será que podemos confiar em nós mesmos para “livrar o mundo do mal”? Será que sabemos diferenciar nosso senso de justiça, de uma simples necessidade de ter mais poder sobre a vida e os acontecimentos?

 

Sou publicitária formada pela ESPM e jornalista formada pela Católica UniSantos, com experiência profissional em planejamento de comunicação e cursos de especialização em marketing digital, também realizados na ESPM. Amo tudo o que é criativo, não sobrevivo sem música, sou apaixonada por viagens, adoro aprender coisas novas, adoro gente simples e espontânea, minha maior paixão é escrever!