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Não me representa

09.09.2015 Samia Assaf

 

 

Acho estranha a forma como as pessoas se agrupam. Sempre procurando aquilo que as façam sentir iguais no que é mais evidente e pode ser facilmente percebido. Exemplos: não falo com aquele cara porque ele é de direita. Aquele lá é esquisito e anda com uma gente muito alternativa. Aquele não é da minha religião e tem uns costumes diferentes. Aquele não é influente e bem relacionado. Aquele cara come gluten e lactose… Jesus!

Muitas vezes, quando as pessoas se sentem parte de alguma coisa, ou quando uma identidade de grupo se forma, parece que ela acaba prevalecendo sobre todo o resto. E todas aquelas ideias particulares que não batem tanto com as ideias coletivas, vão parar lá no segundo plano, em nome da “causa”. Alguns questionamentos até passam a ser ignorados, afinal, quem quer carregar o peso dos dilemas? As pessoas querem pertencer. Mesmo que, em algum nível, estejam se violentando. Se, para defender os seus (e seus interesses, ou modo de vida) for preciso esquecer de vez em quando que o outro também é gente, se esquece. Era pra ser heroico isso?

É impressionante como as pessoas têm dificuldade de ir um pouco além na hora de escolher com quem têm afinidades. Somos realmente muito governados pelas aparências. Se a gente tentasse enxergar além dessa embalagem que as pessoas chamam de “identidade”, talvez conseguíssemos encontrar aquilo que se chamaria “verdade”.

Mas, peraí, essa identidade não faz parte da gente, da nossa verdade? Claro que faz. Mas isso também nos diz que há mais lá dentro, aquilo que dá origem a todo o resto: uma consciência. E é ela o que realmente determina a natureza de alguém. Afinal, não somos apenas uma “interface” que usamos para interagir e sermos reconhecidos pelos outros. Somos aquilo que ainda nos faz ser gente. E gente é o que somos antes de ser qualquer outra coisa.

Por mais diferentes que sejam as nossas culturas e conceitos sobre tudo o que existe, há certos sentimentos universais e humanos que sempre nos igualam. Em qualquer lugar do mundo há pessoas que conhecem o amor por um filho, a tristeza de perder alguém querido, a alegria de estar com amigos, a solidariedade que brota quando vemos alguém sofrer, o prazer em celebrar algo, a vontade de se apaixonar, a emoção ao ouvir uma música, etc.. Se a gente se baseasse nesse tipo de afinidade pra enxergar o outro como semelhante, em todo o resto poderíamos ser diferentes, que não haveria o menor problema.

Todo o mal se torna possível quando nos permitimos desumanizar o outro. Se ele não é dos “meus”, não é gente como eu. Assim, as pessoas se permitem fazer, ou deixar acontecer, com o diferente, uma série de injustiças e violências que jamais admitiriam acontecer com aquele que considera igual a si.

Mas por que a gente tem tanto medo de conhecer o outro – e até de conhecer a si próprio, independente do “grupo”? Talvez, por que assim tudo ficaria muito confuso e difícil de classificar. Ninguém saberia mais dizer o que é o que.

Temos medo de destruir um mundo feito de conceitos com os quais estamos acostumados. É a impressão que tenho. Nossas mentiras se tornaram tão necessárias, que já não sabemos viver sem elas. Exemplos não faltam. Vivemos num mundo onde o melhor marketing político consegue conquistar a sua confiança e eleger um candidato, mesmo que ele seja péssimo. Onde empresas, em suas campanhas publicitárias, são sempre eficientes, sustentáveis e oferecem um bom negócio pra você, mesmo que muitas vezes isso seja lorota. Onde muita gente não sabe diferenciar uma necessidade de consumo real – aquela que se adapta a você, ou a seu estilo de vida – de uma necessidade inventada – aquela coisa que você acha que precisa ter só pra parecer com todo mundo. Onde a gente tenta acreditar que toda guerra é feita de mocinhos X bandidos, mesmo que o buraco seja sempre muito mais embaixo e mexa com interesses muito além dos divulgados e discutidos amplamente.

Por falar nisso, generalizações são algumas das ferramentas mais úteis para que isso tudo seja possível. Elas costumam deixar tudo mais fácil. A gente adora dizer que o brasileiro é isso, o americano é aquilo, petista é assim, tucano é assado, hetero é esse tipo de pessoa e gay é esse outro, rico é sempre de um jeito, pobre sempre de outro…

As pessoas parecem adotar uma lógica na qual todas as pessoas de um determinado grupo social foram feitas em série. Todas iguais. Se alguém lá, daquela turma, já disse ou fez algo que eu não gostei, todos ganham a mesma fama e antipatia. Se disse ou fez algo bom, todo mundo lá é incrível. Será que precisamos ser assim tão burros?

Todo mundo sabe que há gente de todo caráter, de todo jeito, em todo lugar. Dentro de cada povo / instituição/ partido / religião / etc  há muitas concordâncias e discordâncias. Além da sua bolha há, inclusive, gente com quem você teria mais afinidades do que seu vizinho, que mora ali do lado, frequenta a mesma padaria e talvez tenha até votado no mesmo candidato. Quantas vezes, diante de uma situação limite, ou tragédia mesmo, você não recebe ajuda de alguém que nem esperava, ou nem tem nada a ver com você? Nada como uma dificuldade pra nos lembrar do que somos feitos, né?

No final das contas quase todo mundo quer coisas muito parecidas: viver com saúde e segurança, receber uma educação, descobrir sua vocação, aprender uma profissão ou ofício que o permita pagar suas contas, prover as necessidades de sua família, viver com dignidade.  É através dessas coisas que construímos nossa felicidade.

Não há absolutamente nada errado em pertencer a um grupo ou identidade. Mas quando tudo aquilo que te define tira do outro o direito de ter essas mesmas coisas que você tanto preza, aí a coisa muda de figura. Diferenças culturais, ou seja lá quais outras, podem coexistir se houver respeito. O que não dá mais pra ser tolerado é a desumanidade. Temos que tomar cuidado para não sair “demonizando” qualquer coisa que “não nos representa”.

Deixo vocês com uma palestra TED super interessante com a escritora Elif Shafak, onde ela fala, entre outras coisas, sobre identidade, estereótipos culturais e os riscos de nos fecharmos em “clusters” onde só há pessoas que são um reflexo de nós mesmos.

 

 

 

Sou publicitária formada pela ESPM e jornalista formada pela Católica UniSantos, com experiência profissional em planejamento de comunicação e cursos de especialização em marketing digital, também realizados na ESPM. Amo tudo o que é criativo, não sobrevivo sem música, sou apaixonada por viagens, adoro aprender coisas novas, adoro gente simples e espontânea, minha maior paixão é escrever!