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Não se torne um fanático

25.05.2016 Samia Assaf

Em tempos nos quais todos sentem a necessidade de se definir – de se posicionar, se classificar como algum tipo de pessoa, que crê em algum tipo de coisa – eu não consigo me sentir pertencendo a nada.

De tanto me incomodar com esses comportamentos típicos, quase caricatos, das pessoas que ficam repetindo as mesmas “pérolas da sabedoria” sem parar, resolvi tentar entender porque isso me causa tanto repúdio. Até porque me lembro de eu sempre ter sido assim.

Não sou o tipo de pessoa que consegue vestir a camisa – qualquer que seja ela. Qualquer coisa que (mesmo sutilmente) ganhe uma identidade, cor e nome (ou rótulo), fazendo com que um grupo inteiro comece a se comportar de forma parecida e a repetir as mesmas coisas exaustivamente, me assusta. E isso vale pra tudo: cultura corporativa, seita religiosa, militância de partido político, ou alguns desses movimentos “new-age” de gente supostamente descolada e pseudo-justiceira, que mesmo “defendendo a tolerância”, vive xingando, ou menosprezando todo mundo. Será essa a maneira dessas pessoas de contribuir para um aumento de consciência?

Sei que dizer isso agride as convicções de muita gente, mas é apenas a verdade sobre como eu me sinto (confessando, ou não). Odeio qualquer coisa que me lembre fanatismo. Sempre odiei. Tenho a impressão de que a pessoa “emburrece”, porque perde a capacidade de raciocinar por si só, livremente. Ou seja, de raciocinar sem ter a necessidade de associar suas impressões a algum padrão pré-estabelecido, como se não tivesse nem propriedade do próprio pensamento. Também percebo que quanto maior o grau de envolvimento com a “ideologia”(na falta de um nome melhor), mais a atenção dessas pessoas se torna seletiva, fazendo com que elas passem a enxergar apenas as partes da verdade que servem para justificar aquilo que elas sustentam. Quanto mais radical, ou extremista alguém se deixa ficar, menos perspectivas considera sobre os assuntos de seu interesse, passando a considerar apenas um ponto de vista massivamente predominante. Isso não é bom e nunca será.

E daí fico me perguntando por que temos tanta necessidade de pegar nossos sentimentos e ideias e colocá-los dentro de uma embalagem, com uma etiqueta pendurada nela?

Talvez porque crescemos num mundo assim. Estamos acostumados com isso. Para todas as coisas, foram criadas embalagens bonitinhas. Para as empresas, sistemas políticos, grupos sociais e, me perdoem, até para as religiões. Nossa concepção sobre a maioria das coisas foi construída em cima de muita propaganda. Nós não somos livres. Nossa mente nem é livre. Alguns conceitos e mentiras estão tão enraizados em nós que nem sabemos mais o que é verdade. Estamos tão acostumados com estereótipos, que nem conseguimos mais fugir deles. Isso significa, no meu entendimento, uma tentativa de dividir pessoas com base em critérios estúpidos. Você não enxerga mais um ser humano como ele realmente é. Você só consegue entende-lo de acordo com uma série de classificações inventadas e assimiladas pela sociedade. Como isso funciona? Simples, você substitui valores morais por rótulos. A pessoa é boa porque é dessa religião. É consciente porque aderiu a esses “ismos” todos aqui. É esclarecida porque veio desse lugar. Etc, etc, etc… Nessa lógica, quem não pertence ao grupo é sempre desacreditado, mesmo antes de abrir a boca. E você ainda faz isso de boa fé, acreditando que está lutando por algo que faz sentido, mas está se deixando segregar sem nem perceber.

Ao invés de nos conectarmos de verdade, o que só acontece quando nos permitimos usar nosso bom senso, ou invés de pré conceitos, estamos construindo muros em torno de nós mesmos, nos isolando cada vez mais e odiando tudo o que deixamos do lado de fora. É triste ver como as mesmas pessoas que tanto defendem a diversidade, não conseguem sequer se relacionar com gente que não é da sua “turminha”.

Precisamos transcender isso tudo. Estou numa fase da vida que tenho vontade de vomitar tudo o que aprendi. É melhor destruir tudo o que (pensamos que) sabemos, do que nos deixarmos destruir por essas mesmas coisas. Precisamos lembrar que ideologias nascem e morrem, de acordo com o que se adapta melhor às necessidades de uma época, mas valores humanos são universais e pra sempre. Uma coisa não é sinônimo da outra. Sendo assim, você não é bom porque é de esquerda, ou de direita. Você é bom quando amadurece o suficiente para criar consciência de que deve viver com honestidade, compaixão e respeito. Esses valores não são de propriedade de nenhuma ideologia, eles são de sua própria responsabilidade, sempre foram e sempre serão.

Não quero dizer que não é válido lutar por suas convicções e projetos. Nada disso. Juro que não. Apenas gostaria de dizer que, enquanto estiver fazendo isso, não desligue o seu bom senso, não limite a sua análise crítica, e não se deixe levar cegamente. Em outras palavras: não perca sua autonomia. Temos uma mania romântica de endeusar tudo o que amamos, mas não existe  algo ou alguém que seja perfeito. O que existe é um monte de coisas que precisam ser aperfeiçoadas (incluindo nós mesmos) se a gente admitir seus problemas. Em hipótese alguma se transforme num fanático. Essa é a única esperança de construirmos um futuro genuinamente novo, ao invés de continuarmos requentando o passado, que é o que temos feito.

Sou publicitária formada pela ESPM e jornalista formada pela Católica UniSantos, com experiência profissional em planejamento de comunicação e cursos de especialização em marketing digital, também realizados na ESPM. Amo tudo o que é criativo, não sobrevivo sem música, sou apaixonada por viagens, adoro aprender coisas novas, adoro gente simples e espontânea, minha maior paixão é escrever!