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Nessas eleições, o derrotado foi o respeito

28.10.2014 Samia Assaf

 

Não me pronunciei quase nada durante essas eleições. Eleições que enlouqueceram as pessoas, transformaram amigos em inimigos, parentes em serpentes e pior: candidatos em santos ou demônios.  Parece que tudo ganhou um tom extremista demais durante esse período.

Simplesmente não consegui sentir vontade de entrar em qualquer discussão, que de discussão não tinha nada. Era briga mesmo, que – infelizmente – só serviu para confirmar uma coisa que acho péssima: a maioria das pessoas repudia tudo o que considera diferente de si.

E não foi capaz de conviver com o diferente até o maior dos defensores das diferenças. Aquele mesmo cara que vive apontando o dedo para condenar preconceitos , intolerâncias e injustiças, foi preconceituoso, intolerante e injusto com qualquer um que tivesse uma opinião contrária a sua. A liberdade de expressão foi super usada. A dos outros, ofendida. Em outras palavras, a regra parecia ser: você é totalmente livre pra concordar comigo.

Não bastassem todos os escândalos e sujeiras que cada candidato apontou na trajetória política do outro, ou de seu partido, um grande escândalo foi o comportamento dos eleitores e as sujeiras que eles chegaram a dizer entre si. Se eu não trabalhasse com internet, provavelmente iria querer ficar fora das mídias sociais nesse período. Teria me sentido bem melhor assim, sem precisar ficar com raiva de gente que eu gosto.

Ao contrário do que se possa imaginar, nem fiquei com raiva dessas pessoas porque preferiam esse ou aquele candidato. Fiquei com raiva da maneira como decidiram os defender. Não consegui digerir os deboches, a acidez, nem o ar de superioridade intelectual, moral ou o que quer que seja com que trataram aqueles com os quais não concordavam. Cada um competindo pra ver quem tinha o pedestal mais alto do Facebook.  Seria mais interessante pensar que todo mundo, pelas razões mais discutíveis possíveis, resolveu botar a sua fé em alguém pelas mesmas esperanças. Porque, no final das contas, o que todo mundo espera é ver o Brasil melhorar.

Também não digeri essa idolatria fervorosa que transformava qualquer crítica ao seu candidato favorito em insulto imperdoável, como se ele fosse um ser de suprema luz que estivesse acima de qualquer suspeita e seu adversário, é claro, abaixo de qualquer elogio. De repente, o mundo virou o Star Wars e todo mundo tentava apontar quem é que estava do lado errado da força. Ter fé em um candidato pode ser uma coisa boa, mas essa fé que nos tira a capacidade de avaliar, criticar e reprovar, se preciso for, nunca será saudável para o país. A impressão que dá é que tem gente que sempre vai preferir inventar desculpas pra tudo o que seu partido preferido fizer de ruim, só pra nunca ter que admitir que ele é capaz de errar.

Melhor lembrar que acima dos partidos, dos candidatos e das preferências estão os nossos valores. E eles não merecem ser sacrificados para apoiar seja lá quem queira nos governar. É quem nos governa que deveria ser capaz de se sacrificar mais para fazer jus a toda essa  fé e confiança recebida por aqueles que o elegeram. E quem sabe, para ganhar a admiração e o respeito também daqueles que não o elegeram. Seria bom manter isso em mente pelos próximos anos.

 

 

Sou publicitária formada pela ESPM e jornalista formada pela Católica UniSantos, com experiência profissional em planejamento de comunicação e cursos de especialização em marketing digital, também realizados na ESPM. Amo tudo o que é criativo, não sobrevivo sem música, sou apaixonada por viagens, adoro aprender coisas novas, adoro gente simples e espontânea, minha maior paixão é escrever!