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O amor no banco dos réus

03.06.2015 Samia Assaf

 

Depois de reparar na “polêmica” criada por causa da campanha de Dia dos Namorados do Boticário, fiquei um pouco sem entender a reação das pessoas que se revoltaram. Me deu vontade de perguntar: meu filho, você jura que nunca viu um casal gay na vida? Se é óbvio que já, por que vê-los numa propaganda te chocou tanto?

Sério, gostaria de entender em que mundo paralelo vivem essas pessoas, que chegaram ao absurdo de levar o caso ao Conar – ao Conar, minha gente!  – e os argumentos que li, em alguns comentários, foi o que menos me ajudou a compreender alguma coisa.

 

A tal da família tradicional brasileira…

Muita gente disse que o anúncio ofendia a família tradicional brasileira. Então eu queria perguntar: quem é essa tal “família brasileira tradicional”?  As pessoas falam como se existisse esse padrão. O Brasil é feito de famílias tão diferentes em relação à cultura, religião e etnia, que a maneira como encaramos as coisas tem um grau de relatividade bem grande .

Aliás, fica a dúvida: por que, para algumas pessoas, respeitar a diversidade sexual virou sinônimo de desrespeito à família? De que maneira alguém – só por ser diferente de você – poderia estar obrigando a sua família a mudar? Se uma pessoa é vegetariana, também pode achar que alguém que come carne a está desrespeitando? Se é cristã, pode achar que um muçulmano a ofende por praticar outra fé? Não, né!

Outra coisa que não consigo tirar da cabeça: o que leva essas pessoas a crerem que gays não valorizam a família? Porque essas “pessoas ofendidas” falam como se eles tivessem se materializado nesse mundo do nada, né? Como se nunca tivessem sentido a importância dessa união e desse amor, como se só elas soubessem o que família significa.

 

“Tenho filhos pequenos, que estão em fase de formação”

Pais que estão preocupados com a boa educação dos seus filhos, têm um jeito muito simples de resolver essa questão: sendo bons pais! Atenciosos e dedicados. Pode ter certeza que se a criança crescer sem aprender o que é honestidade, respeito, amor, compaixão (e tantos outros bons valores) a culpa será deles e não do casal gay da propaganda, que não tem nada a ver com a história. Muito menos dos tantos casais gays que existem na vida lá fora, quer esses pais os aceitem, ou não. Ninguém é melhor ou pior do que ninguém por ter essa ou aquela opção sexual. O que faz a gente ser melhor, ou pior é o que forma nosso caráter.

Aliás, esse auê todo é porque os casais gays apareceram num comercial? E o que esses pais dizem aos seus filhos quando eles encontram esses casais nas ruas? Eles fazem o que, mentem a respeito do assunto, tratando as crianças como se fossem burras? Ou muito pior, os incentivam a discriminá-los? Não seria mais saudável educá-los para compreender a realidade, para enxergar que o mundo comporta essa diversidade (e tantas outras) e que, portanto, é necessário conviver com respeito?

Na minha opinião, isso deveria fazer parte da formação de qualquer criança. Sim, porque qualquer criança um dia vai crescer, estudar, trabalhar e frequentar ambientes onde vai conhecer e interagir com uma porção de pessoas com opções sexuais diferentes das suas. E aí, como será esse convívio? Será mesmo que a melhor forma de educar seu filho é “mudar de canal” ao ver uma propaganda como a do Boticário? Ou conversar a respeito?

Homossexuais estão hoje nas propagandas, porque antes de estarem lá, nas novelas e nos filmes, eles  já faziam parte da nossa sociedade e sempre farão. Assumir publicamente essa opção, assim como seus parceiros (as), é escolher a honestidade, ao invés da hipocrisia. É, para eles, escolher ser feliz – um direito que todos têm, mesmo que tenha gente que se incomode com isso.

O amor pode se manifestar de diversas formas. Mas a forma, no final das contas, nem é o que importa. O que importa mesmo é que é amor. Vamos deixar o amor existir!

 

Sou publicitária formada pela ESPM e jornalista formada pela Católica UniSantos, com experiência profissional em planejamento de comunicação e cursos de especialização em marketing digital, também realizados na ESPM. Amo tudo o que é criativo, não sobrevivo sem música, sou apaixonada por viagens, adoro aprender coisas novas, adoro gente simples e espontânea, minha maior paixão é escrever!