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O medo nosso de cada dia

23.01.2015 Samia Assaf

 

Desde que li a notícia sobre a morte do surfista Ricardo dos Santos,  fico pensando sobre a facilidade de uma pessoa ser assassinada. No caso dele, isso me faz pensar mais ainda, já que quem o matou foi justamente um policial, que já havia sido réu em 5 processos, nos quais foi acusado de abuso de autoridade, ameaça, lesão corporal e invasão de domicílio.

 

 

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Uma pessoa pode ser morta por qualquer motivo, ou até nenhum, ou até por aqueles que deveriam nos proteger.  Esse rapaz foi morto pela razão mais sem sentido possível, apenas porque queria que o policial tirasse o carro de cima de uma tubulação, já que estava acontecendo uma obra no local.  Isso é razão pra morrer? Mas razões que não deveriam existir, a gente tem de monte, né? Os noticiários estão cheios delas.

Tem gente que morre pra sustentar o vício dos outros, gente que morre por causa da intolerância, por causa de briga, por causa de time, ou porque deixou o parceiro, ou porque não tem dinheiro e deve, ou porque tem demais e vai deixar herança, há até quem morra por saber demais, ou, simplesmente, por causa de nada, por bala perdida, ou porque não foram com a sua cara. Além dos muitos, como todo mundo sabe, que morrem vítimas de assalto ou tentativa dele, como o caso do estudante Alex Bastos, assassinado recentemente com 6 tiros em um ponto de ônibus, no Rio. 6 tiros. Dá pra entender uma coisa dessas? Leia a comovente carta dos pais de Alex.

É de enlouquecer de tanta angústia. Em um país onde mais de 50 mil pessoas morrem assassinadas em um ano (e, só pra lembrar, 50 mil são estupradas)  não dá pra viver sem medo, nem pra se sentir livre de verdade.  Somos o 7° país mais violento do mundo. Por que será?

Não sou nenhuma entendida no assunto. Mas sei que viver num lugar com altos índices de corrupção policial, uma justiça lenta e muita impunidade não colabora pra melhorar o cenário. Também  não colabora ocupar o 8° lugar em desigualdade social, entre 128 países avaliados no Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU.  E também imagino que nem deve dar pra começar a diminuir essa desigualdade, se a nossa Educação (aquilo que deveria abrir portas pra desenvolver o ser humano e criar oportunidades de trabalho) também não vai nada bem – ocupamos o 38° lugar, entre 40 países avaliados pela Pearson (empresa que cria soluções para esse setor).  Nada disso pode ser bom. Assim como não é bom saber que quem poderia estar investindo nosso dinheiro pra criar projetos de melhorias em todas essas áreas  (os nossos governantes)  vive envolvido em todo tipo de imundice que se pode imaginar, independentemente de partidos – a gente também consegue ter maçãs podres de todas as variedades.

No final das contas, o que pode acontecer? Em um dia a gente estar assistindo uma notícia triste como essa e no outro ser a nossa vez, ou a de alguém que a gente ama. A gente nunca sabe. É horrível dizer isso, é o tipo de coisa a que as pessoas respondem “vira essa boca pra lá”, mas é assim que eu me sinto. Tá fácil demais morrer no Brasil.

E quem ainda não entrou pra essa estatística e vive, tem que viver com medo de tudo. Medo de andar a pé à noite, de dirigir com o vidro do carro aberto, de atender o celular na rua, de ir ao banco fazer um depósito, de invadirem a sua casa,  ou seu local de trabalho, de confiar nos outros, de ser enganado, de estar no lugar errado, na hora errada…. de existir.

Isso não é uma vida normal nem quando você teve a sorte de (ainda) não ter sido vítima de violência alguma.  Esse medo constante já é, em si, uma violência. Essa paranóia de ter que olhar pros lados e estar sempre preparada pro pior já é uma aberração. Sobrevivemos, mas que vida é essa?

Sou publicitária formada pela ESPM e jornalista formada pela Católica UniSantos, com experiência profissional em planejamento de comunicação e cursos de especialização em marketing digital, também realizados na ESPM. Amo tudo o que é criativo, não sobrevivo sem música, sou apaixonada por viagens, adoro aprender coisas novas, adoro gente simples e espontânea, minha maior paixão é escrever!