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Porque gostei de Sense8

15.07.2015 Samia Assaf

 

Ao contrário de muitas críticas que li, escritas por jornalistas de diversos veículos, gostei bastante da série Sense8, da Netflix, criada pelos irmãos Wachowski.

 

Por que gostei dela?

 

Tem uma passagem, que muitos jornalistas consideraram vazia – ou clichê, ou enigmática… – mas que eu adorei e acredito que resume bem a razão do meu afeto pela história.  O trecho é um diálogo entre o personagem Jonas Maliki (Naveen Andrews) e o personagem Will (Brian J. Smith):

Will: Quem somos nós?”.

Jonas: QUEM nós somos é menos relevante do que O QUE nós somos . E O QUE nós somos é DIFERENTE do que eles são.

É isso. Na minha opinião, nada enigmático: as pessoas raramente querem saber QUEM você é de verdade, elas apenas precisam definir O QUE você é, pra saber se você cabe no “grupo” delas. E também, é claro, se são ou não favoráveis a pessoas como você.

Na vida real, chame esse grupo do que for – identidade cultural, raça, religião, nivel sócio-econômico, opção sexual. Na série, o “nós” é um grupo de 8 pessoas com uma mutação genética que permite que eles compartilhem suas consciências. Esses “mutantes” , ou humanos evoluídos, são chamados Sensates. E como é de se esperar, o “diferente” nem sempre agrada e os personagens são perseguidos por uma organização que deseja estudá-los (para explorá-los?) / exterminá-los. Nada diferente de X-Men, até aí.

Mas o bacana da história é que a mutação, ou evolução, nesta série, trata justamente da capacidade de estar “na pele” do outro. Ou seja, sentir o que o outro sente, lembrar do que o outro lembra, precisar salvar o outro para salvar a si mesmo, pois eles nunca mais estarão “desconectados”. Nunca mais serão um só. O que têm pela frente é uma coexistência forçada. Uma capacidade de conhecer o próximo além das aparências.

Em um mundo no qual o ser humano ainda não aprendeu tais coisas, isso faz pensar bastante. Ainda não somos tão capazes de coexistir, ou de colocar o bem comum acima do bem particular. Existem guerras bem atuais para nos lembrar disso ( e bem antigas também). Nos lembrar que continuamos a adotar a lógica “nós” e “eles”, repetitivamente. Se uma guerra, ou conflito acaba, outro surge em um lugar diferente e tudo se repete, com os mesmos tipos de crueldade. Ou seja, não há evolução real. Só muda o lugar e os nomes. “Nós” e “eles” já foi tanta coisa… alemão contra judeu,  inglês contra indiano, francês contra argelino, israelense contra palestino, sérvio contra bósnio, branco contra negro, etc, etc, etc… Ah, quase ia me esquecendo… petistas contra tucanos também servem de exemplo.

Pode parecer clichê citar isso, mas vale lembrar do Experimento de Aprisionamento de Stanford, em que voluntários foram confinados para participar de um estudo psicológico que investigava comportamentos de grupos.   Os participantes foram então divididos em grupos de prisioneiros e carcereiros. A partir do momento que cada um teve seu papel definido em times separados, mesmo se tratando de uma simulação, a situação saiu do controle, uma porção de abusos acabou acontecendo e a experiência teve de ser encerrada.
Nós e eles. Um contra o outro.

 

Por que “eles” nunca podem ser “nós”?

 

Lembro de ter assistido uma propaganda dos anos 90, não sei de que país, que mostrava duas crianças brincando juntas. No final, era dito algo como “um é bósnio e o outro é sérvio, mas eles ainda não sabem disso”.

Pra muitas pessoas é difícil imaginar que alguém tão diferente possa ter algo em comum com a gente. Ou pelo menos, algo que merece ser compartilhado. Não se imaginam emocionados, ou se divertindo por ouvir uma mesma música, ou por apreciar uma mesma vista, ou seja lá o que for. É como se o outro não fosse sequer o mesmo tipo de humano, mesmo que mutantes não existam. Sempre achamos algo para nos separar, ou para desumanizar o “diferente”.

 

 

Na série, isso é bem explorado, porque – propositalmente – os personagens tem origens bem distintas. É um cara que vive num gueto africano, uma indiana famacêutica que gosta de rezar pra Ganesha, um gangster alemão, um policial americano, uma hacker transgênero ativista política, uma islandesa com um grande trauma do passado, um ator mexicano gay que não consegue sair do armário, uma coreana boa de luta e ruim de família. Imagine como seria o mundo se fosse comum se misturar tanto assim. Que efeitos isso teria na política, ou na formação de opinião pública diante das decisões de nossos representantes? Será que seríamos capazes de sentir tanta raiva gratuita, ou injustificada? Será que seríamos tão indiferentes, ou conformados? Será que teríamos mais iniciativas para melhorar o que precisa ser melhorado?

 

Tudo bem, mas o que falta na série?

 

Falta conflito. Todos no cluster atual se dão super bem. Tudo flui e eles ficam amiguinhos facilmente. Todos compartilham o melhor de si, mesmo que nem todos tenham uma vida certinha. Mas eu fico imaginando o quanto uma experiência dessas afetaria alguém ruim, agressivo, preconceituoso, ou violento. Acho que isso merece ser mais explorado, imaginado, especulado na série.

Por exemplo: eu fiquei imaginando um skinhead descobrindo que faz parte de um grupo onde há negros, árabes, judeus, homossexuais. Numa situação em que ele fosse obrigado a sentir na pele o que o outro sente. O quanto essa experiência o mudaria? Como seu grupo de skinheads passaria a vê-lo? O que ele faria a partir de então?

Queria ver na série uma situação na qual essa divisão entre “nós” e “eles” ficasse tão difícil de entender que o personagem seria obrigado a se perguntar novamente quem ele é de verdade, no que ele realmente acredita, que tipo de vida quer viver, que tipo de mundo quer ajudar a construir.

Espero que conflitos assim surjam nas próximas temporadas – e na vida também, para aprendermos mais sobre os outros!

 

Sou publicitária formada pela ESPM e jornalista formada pela Católica UniSantos, com experiência profissional em planejamento de comunicação e cursos de especialização em marketing digital, também realizados na ESPM. Amo tudo o que é criativo, não sobrevivo sem música, sou apaixonada por viagens, adoro aprender coisas novas, adoro gente simples e espontânea, minha maior paixão é escrever!