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Tributo à esquisitice

19.03.2015 Samia Assaf

A esquisitice é como um ar fresco pra respirar de vez em quando. É uma boia salva-vidas num mar de mesmices. Aquela promessa que faz a vida parecer interessante outra vez. A normalidade, às vezes, pode ser muito sufocante e assustadora. Por isso, ando pela vida esperando uma porta aberta – ou alguém que me dê a mão – para atravessar para esse mundo, onde pode estar escondido tudo aquilo que ainda tinha a capacidade de me surpreender.

A esquisitice é libertadora. Nela, nada precisa caber nos moldes chatos da perfeição – essa ditadura que nos condena à infelicidade de uma vida previsível. Nos seus domínios moram o genuinamente novo e o absolutamente inusitado. Em um regime onde é prática comum levar loucuras a sério e cruzar aquelas linhas que costumam separar e limitar todas as coisas. Lá é onde se chega onde ninguém costuma ir.

É por isso que não existe criação sem uma boa dose de esquisitice. Sem ela, nada nunca sairia das expectativas padrão, o que nos faria congelar no tempo, sem evoluir, sem nunca descobrir as infinitas possibilidades que a vida continha. A arte não encontraria tantas linguagens pra nos impactar, a ciência não teria encontrado a sua primeira pergunta a fazer, as indústrias não inventariam produtos revolucionários e o seu grande amor poderia ser substituído por um robô, programado pra “te fazer feliz”, como no filme Mulheres Perfeitas.

 

Stepford-Kidman

 

No império da normalidade, não haveria filmes do Tim Burton, discos do David Bowie e o Jack White não seria o Jack White. Eu não ia querer viver num mundo assim. A lista de coisas ótimas que nunca teriam existido seria imensa. Pois pode ter certeza, tudo o que é/foi/será legal, existiu graças a um esquisito. Eles, praticamente salvaram as nossas vidas. Sem eles, só sobrariam as coisas chatas, a monotonia e o Rivotril.

Quem tem medo da esquisitice, nunca se descobre, porque está ocupado demais tentando ser agradável. Se todos decidissem ser assim, a humanidade seria um exército de clones. Ou aquela fileira de crianças sem rosto do filme The Wall, andando na esteira de um moedor gigante, que transforma todo mundo numa mesma massa homogênea.

 

the-wall

 

Mas então deveríamos celebrar nossas possíveis esquisitices?  Bem, só sei que passamos a vida tentando nos ajustar e, muitas vezes, o que colhemos é uma porção de angústias, infelicidades e auto-cobranças. Então, eu fico me perguntando se não é melhor assumir seu desajuste e fazer algo produtivo com ele. Se o desajuste não é justamente o gatilho que nos faria caminhar em direção aos nossos propósitos – e cumpri-los.

Por que deixar esse gatilho enferrujar?

 

 

 

 

 

 

Sou publicitária formada pela ESPM e jornalista formada pela Católica UniSantos, com experiência profissional em planejamento de comunicação e cursos de especialização em marketing digital, também realizados na ESPM. Amo tudo o que é criativo, não sobrevivo sem música, sou apaixonada por viagens, adoro aprender coisas novas, adoro gente simples e espontânea, minha maior paixão é escrever!