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Vigie seu ódio

19.08.2014 Samia Assaf

 

 Pra que tanto ódio? Fico me perguntando qual é o prazer de atacar alguém, muitas vezes até gratuitamente. De onde vem isso no ser humano? É parte da nossa natureza, livre escolha, resultado de uma má educação, ou apenas ruindade? De onde é que o prazer de odiar vem?

A primeira coisa que me vem a mente é que esse prazer em ver o outro sofrer sempre existiu. Afinal, havia pessoas que gostavam de ver gladiadores sendo devorados por leões. Pessoas que iam à praça pública ver  “bruxas” sendo queimadas. Execuções como enforcamentos, apedrejamentos, decapitações por guilhotina – e porque não dizer, crucificações – também contavam com entusiasmadas plateias. Então, isso vem de longe.

Para  justificar o comportamento diante dessas tragédias, as pessoas sempre tiveram a imensa petulância de dizer que o prazer vem da justiça sendo feita, do mal sendo punido. Mas é tudo mentira. A preocupação em preservar o bem passou longe. Até mesmo porque o bem é uma questão de consciência e a única maneira de preservá-lo é promover a reflexão e não o medo. Acredito que as pessoas gostam de ver o outro se ferrar por uma infinidade de outras razões, entre elas:

Por vaidade:  gostam de qualquer oportunidade de se sentirem superiores, de subir num pedestal e apontar o dedo para os outros, como quem diz “eu não sou como você, sou muito melhor”.  É pelo mesmo motivo que há quem adore falar mal dos seus conhecidos, difamar,  caluniar. Espalhar escândalos sempre me cheirou como uma tentativa burra de se destacar, perante a sociedade. Como se alguém, ao condenar o outro, automaticamente se transformasse em alguma espécie de santo, de elite moral. Em outras palavras, é o típico exemplo da pessoa que não se enxerga. Pois se se enxergasse, estaria cuidando de salvar a própria alma.

Por sadismo: gostam de qualquer oportunidade de se sentirem poderosos, através da força, da violência física (ou verbal), ou mesmo tortura. É por essa razão que as pessoas se juntam a coisas absurdas como linchamentos, muitas vezes, sem nem entender direito o que está se passando. É aquele cara que vai  lá pra dar o seu chute, que não vai desperdiçar a oportunidade de bater em alguém, sob a desculpa de estar sendo “justo”. Crimes de guerra são outros exemplos desse tipo de insanidade, coisas como as fotos tiradas pelos soldados americanos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque. Humilhações no trabalho, bullying nas escolas e trolagens nas redes sociais também engrossam a lista.

Por inveja: é gente que não consegue segurar o recalque e morre de ódio de alguém que tenha qualquer coisa a mais do que eles, seja lá qual for essa coisa desejada. Mais beleza, mais amor, mais dinheiro, mais sucesso, mais personalidade, mais amigos, mais felicidade, mais paz. A pessoa simplesmente não se aguenta, tem que botar defeito, humilhar, ofender e, se der, até  jogar umas pedras no caminho do outro. É um ódio perseguidor que inflama desde as competições no trabalho, até aquelas nos seus círculos pessoais.

Se eu fosse resumir todas as razões para o ódio existir – essas mencionadas e mais tantas outras – em uma só, eu apontaria a seguinte:

Falta de amor-próprio: as pessoas que mais odeiam os outros, são justamente aquelas que mais se odeiam. Pode ter certeza. Repare. Preste atenção. São pessoas infelizes com a própria vida, ou pelo menos, muito insatisfeitas com determinados aspectos dela, ou de si mesmas. E acabam descontando isso no outro.

Acho que o ódio está extremamente ligado ao sentimento de falta de poder. Ele vem da frustração que uma pessoa sente quando não se acredita capaz de mudar o que a incomoda. Ela se odeia porque é subordinada a alguém e não consegue ser chefe, porque se acha feia e não consegue se gostar, porque tem ideias, mas não tem coragem de colocá-las em prática, por que vive sob regras com as quais não concorda, mas não tem ousadia para questioná-las, etc, etc, etc.

Sendo assim, a única maneira que essa pessoa encontra para se sentir “por cima” é ver o outro cair. Odiar, portanto, nada mais é do que aceitar a própria mediocridade.  É perder a fé em si mesmo. É o conformismo, a aceitação e a acomodação que resultam em amargura.  Quem vive a própria história e aprende com ela não desperdiça sua energia com o ódio. Utiliza essa energia para se conhecer, se melhorar e construir uma vida da qual possa gostar.

 

 

Sou publicitária formada pela ESPM e jornalista formada pela Católica UniSantos, com experiência profissional em planejamento de comunicação e cursos de especialização em marketing digital, também realizados na ESPM. Amo tudo o que é criativo, não sobrevivo sem música, sou apaixonada por viagens, adoro aprender coisas novas, adoro gente simples e espontânea, minha maior paixão é escrever!