Reflexões » Comportamento

Xuxu

28.10.2013 Samia Assaf

 

Hoje é um dos dias mais tristes da minha vida.

Hoje eu perdi meu gatão Xuxu, meu ruivinho persa que eu tanto amo.

Ainda não consigo assimilar tudo isso. Na verdade, acho que eu estou aqui escrevendo essas palavras porque não sei o que fazer. E escrever, publicando ou não ( a maioria das vezes não) sempre foi a minha válvula de escape.

A morte é uma lição difícil de aprender. Como entender a morte? Como entender que alguém que estava presente na sua vida, nos seus dias, a partir de um determinado momento não está mais? Como entender esse vazio que de repente se abre na sua vida? Aceitar que alguém se foi e você NUNCA mais vai vê-lo, ouví-lo.

Há quem não entenda se referir assim a um animal. Amá-lo e sentir a sua falta, como se fosse uma pessoa, alguém da sua família. Tem gente que acha exagerado, histérico, simplesmente não entende. Mas amor… Amor é uma coisa que não se explica, se sente. E todo amor nos evolui.

Tem gente que não entende, ou desconhece o quanto eles, os animais, são capazes de amar. Quanto amor eles gentilmente, inocentemente nos dão. O quão sinceramente sentem a nossa falta e se alegram cada vez que nos vêem. Como explicar uma coisa dessas? Explicar que eles, chamados de “irracionais”, sem as nossas habilidades sofisticadas, muito mais primitivos do que a gente, são capazes de tanto sentimento? Eles amam muito. E não disfarçam.

Quando a gente pega um bichinho pra criar e, por opção, o traz para viver com a gente, no nosso lar, a gente toma uma decisão que interfere totalmente no destino dele, no que será a vida dele dali pra frente. É uma baita responsabilidade. Sempre pensei isso sobre o Xuxu. Sempre me fascinou imaginar que um gatinho nasceu pra ser criado e viver na minha casa, fazer parte da minha história de vida. Que esse também era o lar dele, como o meu.

Na verdade, no nosso caso – meu e do Xuxu – foi diferente. Porque quando eu fui comprá-lo, eu tinha escolhido outro gatinho. Que tola. Porque aí uma coisa muito especial aconteceu: ele não tirava os olhos da gente, lá de dentro da caixinha, onde ele estava. Ele miava, nos chamava (eu estava com a minha mãe e meu irmão) , encostava seu rosto na grade, fazia de tudo para chamar a nossa atenção,  mexeu com a gente até a gente decidir pegá-lo no colo. Na mesma hora ele se aninhou, começou a ronronar e a fazer aquele carinho felino, de abrir e fechar a patinha, como quem diz “me escolhe, me leva”. O outro gatinho, que não nos conhecia também, fez o que era de se esperar: ficou arisco, arredio.

O Xuxu era nosso. Era nosso porque tinha que ser. Tinha que ser ele, que entrou na nossa casa a primeira vez, como se a casa já fosse dele, de rabo empinado e feliz da vida, bem diferente do que o rapaz que nos vendeu ele previu. Ele disse que seria comum se ele ficasse estressado nos primeiros dias, até se acostumar com o ambiente e as pessoas. Afinal, gato  é um bicho territorialista, um bicho de rotinas.

Mas o Xuxu não. O Xuxu quebrou todas as expectativas, andando pra lá e pra cá como se a nossa casa fosse um lugar que ele já conhecesse, como se ali fosse mesmo o seu lugar. E era.

Quebrar as expectativas, aliás, era a sua especialidade. Há quatro anos, ele ficou bem doente e eu, desesperada. Foi diagnosticado com PIF, uma doença felina bem fatal. A expectativa de vida de um gato com PIF costuma ser de, no máximo, 2 anos. E ele chegou a ficar super debilitado. Na época, pesquisei tudo o que eu podia sobre a doença, fiquei arrasada, mas meu guerreirinho sobreviveu. E bem, com qualidade de vida. Como disse Dr.Mário – veterinário do Xuxu, uma pessoa que eu admiro e a quem vou ser eternamente grata –  ele “brincou de fênix”. Era muito, muito improvável ele ter tido a recuperação que teve.

E assim ele pode ficar mais alguns anos comigo, sendo aquele bichinho que miava pra mim do outro lado da porta, antes mesmo de eu abri-la pra entrar em casa, que as vezes pulava na minha cama pra me acordar, com o bigodão colado na minha cara, que sempre queria saber o que eu estava comendo pra dar a sua experimentadinha, que me seguia por todo canto, que conversava com a gente se a gente respondesse as suas miadas. O gato que vivia entre as pernas da minha mãe e adorava tirar uma sonequinha do lado dela. Que adorava dormir em cima da máquina de lavar roupa e dos nossos sapatos, que entendia o “não” de longe e parava de fazer “arte”, dando, é claro, aquela fungada profunda de reclamação. Quando queria carinho, vinha bem pertinho, dar um “cheirinho”, não tenho palavras pra dizer o quanto era de derreter o coração vê-lo fazer isso. Eu achava que ele entendia tudo. E entendia. Entendia até quando estávamos tristes. E se alguém viajasse, ele sentia tanta falta que ficava até meio borocochô. Ele gostava da nossa casa cheia.

Nas últimas semanas ele já não era mais assim. É triste, dói muito assistir essa mudança de comportamento. A apatia crescendo. As tentativas frustradas de subir em cima das coisas. A fraqueza, a magreza, os vômitos, a falta de apetite. Eu e minha mãe começamos a dar água e comida de seringa pra ele, como da outra vez que ele ficou doente e se recuperou. A gente o levava pra tomar soro e medicamentos, mas dessa vez não adiantou. Era um outro quadro, bem mais complicado, com muitos órgãos comprometidos, com cistos e tumor.

Hoje, ele foi para a clínica para partir. Hoje eu tive que o ver imóvel, em cima daquela mesma mesa onde tantas vezes ele era tratado e saía bem.

Não dá pra acreditar que tudo isso acabou. Como assimilar uma coisa dessas? Que agora, eu estou em casa e ele não está mais aqui. Que eu tive que deixá-lo lá. Vir embora e deixá-lo lá, pra ser enterrado. Ele, que até ontem dormia aqui debaixo do nosso teto. Como assimilar a cena que eu vi hoje? Era ele, mas não era. Porque ele estava lá, sem se mexer. Ele era o meu Xuxu, mas não fazia mais nada do que o Xuxu fazia. Ele não estava mais ali. Para onde ele foi? O que é essa tal de morte? Pra onde ela leva quem a gente ama?

Meu queridinho, meu eterno bebê, que você esteja bem onde você estiver. Dizem que os animais tem um lugar especial pra ficar depois que eles morrem. Que haja muito amor lá, onde você estiver agora. Todo o amor com o qual eu queria poder continuar te cuidando. E o amor que era teu, ainda é teu e vai ficar pra sempre no meu coração. Sei que com o tempo a dor deve amenizar. Mas também sei que essa é uma saudade que eu vou ter pra sempre.

Obrigada, Dr. Mário. Sei que ele se tornou especial pra você também, em tantas vezes que você lutou junto com a gente pela vida dele. Obrigada, minha mãe, pela mãe incrível que você é. E pela nossa cumplicidade de mãe e filha que vai além de palavras.

Que Deus o abençoe e o receba. Deus o criou e Deus o levou. E essa é a natureza da vida que a gente tem que aceitar. A nossa lição mais difícil de aprender.

 

Sou publicitária formada pela ESPM e jornalista formada pela Católica UniSantos, com experiência profissional em planejamento de comunicação e cursos de especialização em marketing digital, também realizados na ESPM. Amo tudo o que é criativo, não sobrevivo sem música, sou apaixonada por viagens, adoro aprender coisas novas, adoro gente simples e espontânea, minha maior paixão é escrever!